O Kriolu Caboverdiano nos Estados Unidos

- - - por Manuel da Luz Gonçalves


O Kriolu de Cabo Verde é provavelmente, de todos os crioulos ainda hoje falados, o mais velho, simultaneamente distinto e próximo deles por via de processos de desenvolvimento linguísticos e históricos comuns. Surgiu no Séc. XV em consequência do comércio esclavagista na costa ocidental africana. Inicialmente, o negócio era conduzido num dialecto baseado no Português. Os africanos feitos escravos pelos portugueses iam para Cabo Verde, onde faziam o transbordo no caminho para as plantações do Novo Mundo. Nesta força de trabalho incluiam-se africanos capturados anteriormente que já haviam tido tempo para aprender o dialecto. Os linguistas supõem que os filhos destes trabalhadores escravos já tinham o dialecto como a sua primeira língua. À medida que as crianças foram crescendo, as suas capacidades linguísticas inatas expandiram o dialecto limitado dos seus pais e tornaram-no numa língua completamente formada, um crioulo, útil em todas as áreas da comunicação humana. O Kriolu de Cabo Verde está ainda enriquecido com conceitos, estruturas e cadências das línguas dos muitos africanos que para lá foram levados.

Após o fim do comércio de escravos, o Português permaneceu a língua do império e a língua oficial das instituições estatais de justiça, educação, impostos e defesa. Na cultura colonial, o uso do Kriolu era um sinal de inferioridade social mas, entre muitos trabalhadores e intelectuais, tornou-se um elemento de resistência cultural ao colonialismo português. Poetas escreveram em Kriolu evocações à sua terra natal e às lutas dos seus habitantes, enquanto para líderes independentistas, como Amílcar Cabral, o uso do Kriolu tornou-se um modo de luta anti-colonial.

Após a independência, o Português continuou a ser a língua oficial de Cabo Verde, usada nas salas de aula e nos jornais. O Kriolu é designado como a língua nacional. O seu uso em organizações populares, sindicatos e programas para crianças nos media tem crescido, embora prejudicado em parte pela falta de padronização tanto na forma escrita como na falada. Por exemplo, o Kriolu de Santo Antão difere sensivelmente do da Brava e há divergências quanto à grafia do "k" e do "c".

No Massachusetts, o primeiro dos Estados Unidos ao qual os cabo-verdianos chegaram, as instituições têm seguido uma política razoavelmente aberta em relação às diferenças linguísticas e culturais. Em 8 de Dezembro de 1975, pouco mais de cinco meses após a independência de Cabo Verde, um grupo empenhado de pais cabo-verdianos apresentou à Câmara de Representantes do Estado de Massachusetts um projecto de legislação sobre a língua e a cultura de Cabo Verde e a sua relação com o sistema educativo. Embora essas medidas não tenham sido aprovadas, a apresentação da proposta teve como resultado a inclusão do Kriolu cabo-verdiano na lista de "línguas estrangeiras vivas". Esta ascensão ao estatuto institucional teve efeitos importantes e salutares. Com o Kriolu agora reconhecido pela Transitional Bilingual Education Act (Lei da Educação Bilingue Transitória) de 1971, qualquer distrito escolar com 20 ou mais crianças cuja língua nativa fosse o Kriolu tem de lhes proporcionar a possibilidade de começarem os seus estudos na língua-mãe e a aprendizagem do Inglês como segunda língua até atingirem um grau de desenvoltura tal que possam juntar-se ao corpo comum de alunos. Antes de o Kriolu ser declarado uma língua viva, o Estado considerava-o um dialecto do Português, o que certamente não é, e colocava as crianças cabo-verdianas na situação impossível de se verem obrigadas a aprender Português para poderem aprender Inglês. Não admira que em meados dos anos 60 um programa das New Bedford Model Cities (Cidades Modelo de New Bedford) tenha descoberto um número desmesurado de crianças imigrantes cabo-verdianas colocadas em turmas especiais para crianças com distúrbios emocionais ou com dificuldades de aprendizagem. O estatuto institucional do Kriolu também afecta o modo de contacto dos imigrantes cabo-verdianos com as agências governamentais, desde os tribunais até ao centro de emprego.

Para os os cabo-verdianos da diáspora, o Kriolu é um instrumento de cultura, um utensílio de transnacionalismo e reencontro. Quer em Cabo Verde ou longe daí, em locais como a Holanda, Estados Unidos, Angola, Senegal, Brasil, França e Portugal, o Kriolu é o meio através do qual se partilham sentimentos de fraternidade, hospitalidade e nostalgia, alimentados por este cordão umbilical ligado ao país natal. Da Califórnia a Boston, o Kriolu é parte da nossa identidade, a nossa fonte de conhecimento mas também frequentemente o nosso acesso ao mundo através da rádio, da televisão e do sistema educativo. A luta dos cabo-verdianos para legitimizar a sua língua afecta tanto os próprios falantes do Kriolu como as sociedades em que vivem.


             BATUKU

Nha fla-m, Nha Dunda, kus'e k'e batuku?
Nha nxina mininu kusa k'e ka sabe.

Nha fidju, batuku N ka se kusa.
Nu nase nu atxa-l.
Nu ta more nu ta dexa-l.
E lonji sima seu,
fundu sima mar,
rixu sima rotxa.
E usu-l tera, sabi nos genti.

Mosias na terreru
tornu finkadu, txabeta rapikadu,
Korpu ali N ta bai.
N ka bai. Aima ki txoma-m.
Nteradu duzia duzia na labada,
mortadjadu sen sen na pedra-l sistensia,
bendedu mil mil na Sul-a-Baxu,
kemadu na laba di burkan,
korpu ta matadu, aima ta fika.
Aima e forsa di batuku.
Na batuperiu-l fomi,
na sabi-l teremoti,
na sodadi-l fidju lonji,
batuku e nos aima.
Xinti-l, nha fidju.
Kenha ki kre-nu, kre batuku.
Batuku e nos aima!

    - Kaoberdiano Dambara   (1964-Felisberto Vieira Lopes)

                BATUKU

Diz-me, Nha Dunda, o que é Batuku?
Ensina aos meninos o que sabes.

Meus filhos, Batuku não sei que seja.
Nascemos e aqui o encontramos.
Morremos e aqui o deixamos.
É longe como o céu,
fundo como o mar,
rijo como rocha.
E digo-te, sabe-nos bem.

Moças no terreiro
ancas fincadas, tocando txabeta*
o corpo pronto a morrer.
Mas eu não morro. A Alma chama-me.
Dúzias e dúzias enterrados em campa rasa,
centenas e centenas mortos no desastre da Assistência**,
milhares e milhares obrigados a trabalhar em São Tomé,
queimados na lava do vulcão,
os corpos morrem mas a alma fica.
A alma é a força do batuku.
Resistindo à fome,
enfrentando os terramotos,
com a saudade dos filhos longe,
o batuku ‚ a nossa alma.

Sintam-no, meus filhos.
Quem nos ama, ama o batuku.
O batuku ‚ a nossa alma!

 --- Kaoberdiano Dambara

Notas:

* Txabeta (tchabeta) é o bater rápido e sincronizado com as palmas das mãos contra batuques presos firmemente entre os joelhos, enquanto alguém dança o batuku.

** "Assistência" era o nome popular do refeitório do edifício da assistência social do Governo de Cabo Verde na Praia. As paredes do edifício eram feitas de pedras redondas apanhadas na praia e seguras com muito pouco estuque. Um dia, nos anos 40, o edifício ruiu, esmagando centenas de pessoas. Este incidente é uma metáfora da negligência colonial em Cabo Verde.

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Tradução de Manuel Freitas (malf@telepac.pt) - poema Batuku traduzido com assistência da versão inglesa de Manuel da Luz Gonçalves.