Nos ku Nos: A Comunidade Transnacional Caboverdiana

- - - por Raymond A. Almeida - rayalmeida@post.harvard.edu"


(Nota: A expressão "nos ku nos" é coloquialmente usada para transmitir a atitude de que os Caboverdianos são um povo que se entende, ainda que a sua identidade cultural não faça sentido para quem esteja fora do grupo.)

A cultura caboverdiana, em ambos os lados do Atlântico, desenvolveu um conceito de transnacionalismo, quase um lugar comum numa época em que tanto grandes corporações como pessoas vulgares procuram a sobrevivência económica e beneficiam com o derrube das fronteiras. Os membros das comunidades de emigrantes preservam e reinventam a sua cultura em lugares separados talvez por uma viagem de avião de um ou dois dias, e no entanto permanecem ligados uns aos outros por laços de sangue, por recursos comuns e por intercâmbio cultural.

Os tipos de vida social que as pessoas criam num contexto transnacional têm recebido crescente atenção nos últimos anos, com estudos sobre diásporas, fronteiras e outros contextos supra-territoriais em que os povos praticam a cultura. Pode parecer que a nossa moderna tecnologia e o sistema económico criam as condições para o transnacionalismo. Mas, para os Caboverdianos, o transnacionalismo tem sido um modo de vida desde o Séc. XV. As oportunidades de emigração surgiram da posição estratégica de Cabo Verde na geografia do comércio e do império; a necessidade de emigrar foi criada pela escassez de recursos naturais e de uma base agrícola suficiente em Cabo Verde.

Ao contrário do local verdejante que o seu nome sugere, Cabo Verde é as mais das vezes barrento, ventoso e seco. Nos últimos três séculos, tem-se registado fome de oito em oito anos. Entre 1774 e 1975, mais de 120 000 caboverdianos pereceram das consequências da seca e da fome. Num bom ano, o país apenas consegue produzir 20% das suas necessidades de alimentos. Não é possível compreender o desenvolvimento da cultura caboverdiana sem ter em conta estes factores ambientais.

Desenvolvimento Cultural e Comércio Atlântico

A cultura caboverdiana também se desenvolveu no seio de um sistema económico atlântico. As fundações deste sistema foram lançadas no Séc. XV, com o comércio de escravos que forneciam mão-de-obra não paga para um conjunto de negócios interligados. O primeiro contacto americano registado com Cabo Verde aparece em 1643 no diário de Jonathan Winthrop, o colonizador do Massachusetts (Bailyn 1955:84). Ele anotou um carregamento de aduelas de navios, de Boston para Inglaterra, para financiar a aquisição de "Africoes na ilha de Mayo", que foram depois vendidos nos Barbados para comprar melaço, que foi levado para Boston para produzir rum. Este é um dos primeiros registos do infame comércio trilateral que ligava a Europa, a África e as Américas e que assim construiu o comércio atlântico.

Nos Sécs. XV e XVI, a maioria dos Caboverdianos estava envolvida no comércio de escravos duma forma ou doutra. Senhores da terra e mercadores de escravos traficavam escravos. Outros caboverdianos preparavam os navios que partiam para leste em direcção à costa africana ou para oeste, em escala no caminho para o Brasil ou para as Índias Ocidentais Espanholas com carga humana. As ilhas tornaram-se um ponto de transbordo para africanos escravizados com destino ao Novo Mundo (Duncan 1971: 198-210). Havia igualmente muitos escravos caboverdianos. No início do Séc. XVII, apenas 12% da população do Fogo e de Santiago eram pessoas livres (Carreira 1966: 44).

Estes escravos produziam algodão e teciam panos de corpo. "Os europeus descobriram que tinham de adquirir panos caboverdianos para poderem responder às exigências dos mercadores africanos de que fossem incluídos no seu sortido de bens de troca... Os panos eram praticamente o único bem que eles [caboverdianos] podiam vender com proveito em concorrência com os mercadores europeus" (Brooks 1993: 166).

Emigração

Mesmo antes do fim do comércio de escravos, a caça à baleia, o trânsito de navios e o colonialismo português eram os meios de sobrevivência de muitos caboverdianos. Já por volta de 1750, navios baleeiros ianques aportavam regularmente a Cabo Verde (Sanderson 1956: 261) e, em 1840, mais de 40% dos caçadores de baleias de Nantucket eram caboverdianos (Hohman 1928: 128).

Navios estrangeiros em portos caboverdianos eram a oportunidade para jovens de famílias pobres, que viam pouca esperança para o seu futuro nas Ilhas. Faziam-se frequentemente aos navios apenas com a sua habilidade, a sua determinação e o seu sonho de deixar as ilhas, arranjando uma nova vida para si apesar do sacrifício e mandando dinheiro e mantimentos para as famílias que tinham de deixar para trás. Ex-escravos ou os seus descendentes tornaram-se muitas vezes proprietários por esta via.

Para a elite dos caboverdianos com mais educação, o caminho para alargar os seus horizontes era a função pública portuguesa. Uma carreira administrativa com sucesso em Cabo Verde permitia a muitos assumir cargos semelhantes no império português. Ironicamente, em meados do Séc. XX, alguns destes funcionários públicos caboverdianos assumiram papéis-chave na liderança do movimento anticolonial que provocou o derrube da ditadura portuguesa em 1974 e a independência de Cabo Verde em 1975.

A emigração caboverdiana para os Estados Unidos no Séc. XIX e no início do Séc. XX era composta pelas classes mais pobres das ilhas. Em 1922, o Governo americano restringiu a imigração dos povos de cor, reduzindo grandemente a imigração de caboverdianos. Os novos regulamentos impediam igualmente que os caboverdianos americanos visitassem as Ilhas por receio de que lhes fosse negada a reentrada nos Estados Unidos. As duas comunidades estiveram assim relativamente isoladas uma da outra durante aproximadamente 40 anos. Com as portas para a América fechadas, os caboverdianos começaram a emigrar em grande número para a Europa, América do Sul e África Ocidental, por rotas definidas pelo trânsito de navios e pelo império colonial português. Durante o mesmo período, alguns caboverdianos americanos mudaram-se das comunidades há muito estabelecidas na Costa Leste para as cidades metalúrgicas do Ohio e da Pensilvânia e para a Califórnia.

Em 1966, o Governo americano aliviou os seus regulamentos e uma nova onda de imigração caboverdiana começou. Os recém-chegados a Boston, Brockton e Scituate, Massachusetts, a Pawtucket, Rhode Island, Waterbury, Connecticut, Brooklyn e Yonkers, Nova Iorque, e a outras comunidades da Costa Leste encontraram uma etnia caboverdiana americana cujos membros se pareciam com eles mas culturalmente eram diferentes. Separados por tanto tempo, cada grupo pouco sabia da história recente ou das memórias do outro.

Hoje, as comunidades de imigrantes caboverdianos podem ser encontradas no Senegal e noutros países africanos, na Argentina e no Brasil, em Portugal, Holanda, Suécia, Itália, França e noutros locais da Europa - em 18 países nos quatro continentes. A minha própria comunidade no sul da Nova Inglaterra é a mais velha e a maior da diáspora caboverdiana.

Em 1990, os caboverdianos americanos estimavam o seu número em cerca de 350 000, dos quais mais de 60 000 tinham chegado desde 1966. A população residente de Cabo Verde é de cerca de 360 000 e mais 300 000 vivem nas comunidades da Europa, América do Sul e África.

Remessas e Ética Transnacional

O envio de dinheiro e de bens pelos emigrantes para as famílias que deixam para trás é uma forma de ligação entre os caboverdianos de ambos os lados do Atlântico. Embora os montantes das remessas de fundos flutuem com as condições económicas, em média constituem 25 a 30% do Produto Nacional Bruto de Cabo Verde, um importante recurso para o conjunto da economia das ilhas. Na Brava, a alegria e a incerteza das remessas combinam-se num contraste proverbial entre a carta de amor, em que um familiar emigrante junta alguns dólares às notícias e fotos, e a "carta sec", ou carta seca, que não contém dinheiro.

Através do sacrifício, do trabalho árduo e de uma vontade de correr riscos, alguns caboverdianos ganharam a posse de instituições que apoiam a sua existência transnacional. No final do Séc. XIX, por exemplo, os caboverdianos compraram veleiros velhos e tecnologicamente ultrapassados e começaram o que veio a ser chamado "Brava Packet Trade" (Linha Mercante da Brava), fazendo até dez travessias por ano entre Cabo Verde e Providence e New Bedford, levando carga, correio, passageiros, imigrantes e auxílio humanitário. Estes frágeis navios alimentaram a ligação caboverdiana.

Clubes e Associações Caboverdianas

Os clubes e as associações também contribuíram para juntar populações dispersas. Nas ilhas, sociedades de auxílio mútuo como a tabanka em Santiago e no Maio eram construídas com base em laços de sangue, religiosos e comunitários. Durante os cinco séculos de domínio colonial, os indivíduos pouco puderam esperar do Governo, logo a partilha de recursos escassos era feita habitualmente ao nível da família e da vizinhança. Na América, os caboverdianos criaram em 1917 a Associação Beneficente Caboverdiana em New Bedford, Massachusetts, a primeira de muitas associações fraternas, organizações religiosas, sociedades de socorros mútuos, grupos de estudantes, sindicatos de trabalhadores e outras associações voluntárias. Estes pequenos clubes e associações eram o local de reunião para celebrações ou em caso de necessidade, para que as pessoas se pudessem sentir em casa fora do âmbito do trabalho ou dos aposentos exíguos dos imigrantes.

As organizações tornaram-se igualmente instrumentos de acção comunitária. Em 1934, um acidente fatal no Navio-Farol de Nantucket matou quase toda a sua tripulação caboverdiana. Em resposta, a comunidade caboverdiana de New Bedford juntou-se em torno do advogado Alfred J. Gomes, criando o Seamen's Memorial Scholarship Fund, que proporcionou bolsas de estudo a jovens caboverdianos americanos, coordenou muitos esforços de auxílio às vítimas da seca e mobilizou outras formas de ajuda a Cabo Verde. Muitas outras organizações caboverdianas americanas também apoiaram a educação e o auxílio aos efeitos da seca.

Órgãos de Comunicação numa Comunidade Transnacional

A comunicação é crucial para mobilizar o apoio e para partilhar a informação de interesse para a comunidade. Os caboverdianos americanos têm vindo a editar jornais comunitários desde 1926, quando João Cristiano da Rosa fundou A Voz da Colónia, o primeiro jornal em língua Portuguesa, em Rhode Island. Em 1970, Manuel T. Neves, filho de imigrantes do Fogo e da Brava, iniciou a publicação de um mensário em Inglês, The Cape Verdean, em Lynn, Massachusetts. Há 25 anos que Manuel T. Neves publica e distribui o jornal praticamente sozinho, fornecendo um elo vital de comunicação entre a comunidade e sempre incitando os caboverdianos americanos a tornarem-se mais activos na defesa de Cabo Verde.

A imigração crescente e a escalada da luta anticolonial provocaram o aparecimento de várias publicações nos anos 70. Labanta (Levanta-te!), publicado por Alcides Vicente, esforçou-se por ligar os novos imigrantes em Pawtucket e noutros locais com as comunidades maiores e há muito estabelecidas de caboverdianos americanos.

Entre 1975 e 1978, publiquei a Tchuba Newsletter com o American Committee for Cape Verde, Inc., em Boston. "Tchuba" significa chuva no Kriolu de Santiago e é uma forte metáfora da esperança, uma época para lançar novas sementes. A intenção confessa do jornal era formar uma audiência mais bem informada nos EUA, em solidariedade com a nova República de Cabo Verde. A Tchuba Newsletter incluía regularmente poesia, prosa, adivinhas, anedotas e palavras cruzadas em Kriolu, bem como reportagem e opinião. Antes da suspensão da publicação por razões de ordem financeira em 1978, o tablóide bimestral tinha uma circulação de 10 000 exemplares, 36 páginas e contributos regulares de escritores em comunidades caboverdianas em quatro continentes.

Estabelecido em 1978 por Alcides Vicente e Thomas D. Lopes, o CVN (Cape Verdean News) é publicado quinzenalmente a partir de New Bedford. Vários periódicos novos em Português e em Kriolu são publicados por recém-imigrantes: Mundo Caboverdiana, de Cambridge, e o New Cape Verdean Times, de Pawtucket; em Boston, Arquipélago e Farol publicam regularmente notícias religiosas, poesia e opinião.

Já por volta de 1940, programas de rádio caboverdianos também ajudavam a manter um corpo comum de informação, valores e experiência histórica que alimentavam o desenvolvimento da cultura caboverdiana. Atingiam audiências mais vastas, afirmando valores estéticos e éticos comummente assumidos e explorando alianças políticas. Jim Mendes, um caboverdiano americano que se descrevia a si próprio como o "primeiro DJ negro em Rhode Island", foi o anfitrião por muito tempo de um programa de jazz que frequentemente também abordava os problemas próprios da comunidade Caboverdiana. Nos anos 70, Alberto Torres Pereira, que entrou para a rádio com a ajuda de Jim Mendes, iniciou um programa semanal de entrevistas, co-moderado pelo Representante do Estado de Rhode Island, George Castro.

Em 1978, Alcides Vicente e Romana Ramos Silva, de Pawtucket, criam nos Estados Unidos o primeiro programa semanal de rádio inteiramente caboverdiano e em Kriolu. A parte do atendimento de telefonemas na "Música de Cabo Verde" é um fórum para os membros da comunidade imigrante exprimirem o que lhes vai na alma - normalmente política e cultura em Cabo Verde e na sua diáspora.

Mas ainda há outros mais. Desde há muitos anos que José "Djosinha" Duarte, um popular cantor caboverdiano, tem emitido "Camin pa Cabo Verde" (Caminho para Cabo Verde), um programa de música e notícias que pode ser ouvido em New Bedford e em Rhode Island. Jorge Fidalgo, um empresário na comunidade de Roxbury, Massachusetts, é o anfitrião de um programa semanal de entrevistas e telefonemas, "Nha Terra" (A Minha Terra). Franciso "Chico" Fernandes é o anfitrião do programa semanal "Tras Horizonte" (Para Lá do Horizonte) em Boston. Chico Fernandes, o deputado eleito à Assembleia Nacional de Cabo Verde, representa a comunidade imigrante da América do Norte.

Desde os anos 70 que os caboverdianos americanos têm emitido regularmente programas de televisão. O declamador e cantor John "Joli" Gonsalves, de New Bedford, assumiu um papel pioneiro na programação televisiva caboverdiana americana.

Desde 1989, a Cabovideo, uma empresa de comunicação dirigida por Ed Andrade, um caboverdiano americano, e por João Rodrigues Pires, que vive na Praia, produz um programa semanal pré-gravado de 90 minutos, para a comunidade caboverdiana. Combinando imagens de Cabo Verde com a discussão e a reportagem de assuntos caboverdianos americanos, o programa pode ser visto em 50 cidades em Massachusetts e Rhode Island, onde reside a maior parte da comunidade.

Nacionalidade Transnacional

Há muito mais caboverdianos residentes fora das ilhas do que os que ali vivem. Desde a independência, tem havido um reconhecimento crescente do Governo de Cabo Verde da importância do papel que estes emigrantes desempenham na vida cultural e económica da nação. A lei caboverdiana reconhece oficialmente o estatuto dos emigrantes residentes nas comunidades por todo o mundo, referindo-se a eles como a "comunidade internacional" de caboverdianos que complementa a "população residente" nas ilhas. O Governo inclui um Secretário de Estado da Emigração e os ministérios da Cultura e da Educação organizam regularmente simpósios sobre a estandardização do Kriolu e outros assuntos de interesse para os emigrantes. O Banco de Cabo Verde tem acompanhado as remessas de emigrantes das maiores comunidades caboverdianas e, com a Assembleia Nacional, criou políticas de estímulo às remessas e aos investimentos de longo prazo. Tanto o Governo como o banco nacional definem um caboverdiano como sendo alguém nascido nas ilhas ou tendo um progenitor ou avô ali nascido. Desde 1991, as comunidades de emigrantes votam para as eleições nacionais de Cabo Verde e têm assento na Assembleia Nacional. Os comentários do antigo Presidente, Aristides Pereira, reproduzidos na imprensa caboverdiana após a sua primeira visita aos Estados Unidos em 1983, reflectem o seu entendimento da natureza transnacional do seu povo:

"... Esta visita deixou-me imensamente impressionado, em particular, de ver uma comunidade que não só é grande como também muito velha... um povo que se sente sentimentalmente ligado a Cabo Verde e que transmite religiosamente todos os nossos hábitos culturais aos seus filhos de geração em geração, de família em família... Devemos dar atenção a este fenómeno. Durante a visita, tivemos oprtunidade de ver que já há um número de caboverdianos integrados na vida política e administrativa e que têm alguma influência... Esta comunidade é pequena mas bem vista porque os nossos concidadãos sempre se mostraram trabalhadores e cidadãos sérios." (Vozdipovo 1983:2-3).

Política na Comunidade Imigrante

O respeito pelo passado cultural e pela experiência histórica comum é uma virtude pública importante na comunidade caboverdiana. As pessoas merecedoras do maior respeito da comunidade são aquelas que atingiram o sucesso económico "em termos americanos E que se lembram de onde viemos" (Lena Brito, Wareham, Massachusetts). "Nos bailes de fim-de-semana e sempre que havia uma ocasião especial na Igreja, ninguém precisava de nos dizer quem eram os nossos anciãos ou líderes comunitários. Os que se mantinham em contacto com as ilhas e que se orgulhavam de ser caboverdianos, os que nunca esqueciam de onde provinham: essas eram as pessoas que respeitávamos" (Mary Santos Barros, New Bedford).

Até aos anos 60, os caboverdianos não tinham procurado participar com insistência nas instituições políticas locais do sul da Nova Inglaterra. As pessoas votavam e pagavam impostos mas raramente exprimiam as suas necessidades ao City Hall. Tal como em muitas das comunidades americanas de cor, a política começou a mudar nos anos 60. Os candidatos caboverdianos a City Councilor e ao School Board recorreram às organizações tradicionais caboverdianas para obterem o seu apoio. Inicialmente, estes candidatos depararam-se com cepticismo e com alguma oposição de origem generacional. Os imigrantes mais antigos desconfiavam da política e aconselhavam os jovens políticos a não agitarem o barco. Mas, nos anos 70, os caboverdianos tinham começado a participar em coligações com grupos africanos americanos e latinos. Em Massachusetts, Rhode Island e Connecticut, os caboverdianos têm sido eleitos para as assembleias estaduais. No Connecticut, Francisco Borges, que nasceu numa localidade rural pobre, Sedeguma, Santiago, foi eleito State Treasurer, com a responsabilidade de gerir um orçamento de vinte mil milhões de dólares.

Política e Identidade Cultural

Nos meados da década de 70, a aproximação do Bicentenário Americano trouxe à atenção pública o "pluralismo cultural". Os caboverdianos americanos começaram a organizar-se para obterem maior notoriedade pública da sua identidade distinta no seio das suas comunidades locais em Massachusetts, Rhode Island e Connecticut. Em New Bedford, Manuel A. Lopes e outros ligados à Associação de Veteranos Caboverdianos Americanos, formaram a Comissão de Reconhecimento Caboverdiano para divulgar as realizações e a cultura da comunidade e para pressionar no sentido de permitir que os caboverdianos americanos fossem enumerados, como um povo, nos censos federais decenais. A Comissão organiza uma Parada de Reconhecimento Caboverdiano anual.

Em Rhode Island, vários membros caboverdianos da Black Heritage Committee estabeleceram a Sub-Comissão Caboverdiana Americana para atrairem maior atenção para os problemas dos caboverdianos. Os activistas comunitários, Don Ramos e Oling Monteiro Jackson, lutaram para que os líderes cívicos e os oficiais eleitos do Estado dialogassem directamente com a comunidade caboverdiana. Todos os anos, a Sub-Comissão patrocina um grande festival ao ar livre comemorativo do dia da independência de Cabo Verde, no India Point Park, perto do local onde atracavam os navios da "Brava Packet Trade".

O planeamento das comemorações do Bicentenário, em 1976, provocou frequentes discussões inflamadas sobre a identidade cultural caboverdiana. Seriam as ilhas de Cabo Verde "atlânticas" ou "africanas"? Deveríamos chamar-nos caboverdianos ou portugueses ou ambos? A Smithsonian Institution convidou um grupo de caboverdianos a participar no programa da Diáspora Africana do Festival of American Folklife de 1976, onde poderiam actuar numa área adjacente à dos bailarinos senegaleses. No encontro de orientação que precedeu o Festival, o pessoal da Smithsonian apresentou o grupo de New Bedford como sendo caboverdianos americanos. "Bem, nós não conhecíamos nenhuma das outras pessoas que também estavam no programa, por isso ficámos todos muito surpreendidos quando Buli, o chefe dos bailarinos senegaleses, se levantou de um salto e começou a cantar em Kriolu para nós... Eles sabiam quem eram os caboverdianos... A partir daí o nosso grupo juntava-se ao grupo deles todas as noites" (Lillian Ramos, Acushnet, Massachusetts). A experiência do Festival trouxe um ímpeto adicional às discussões sobre a identidade cultural caboverdiana.

Em programas de rádio e em jornais locais de New Bedford, alguns líderes locais negros americanos mostraram oposição ao "reconhecimento caboverdiano" como uma estratégia de organização da comunidade. Segundo eles, seria simplesmente uma maneira de os caboverdianos tentarem fugir à admissão de que eram "apenas simples negros como o resto de nós". Alguns proeminentes activistas comunitários caboverdianos concordaram que o "reconhecimento caboverdiano" ameaçaria alianças entre as comunidades e diluiria o frágil poder político local minoritário que tinha sido alcançado com tanto esforço. Outros caboverdianos americanos sentiram a necessidade de se oporem ao modo como se construiram as racas na América, dividindo a comunidade segundo categorias sociais arbitrárias. Muitos caboverdianos americanos concordavam que ser caboverdiano na América seria sempre uma difícil negociação de cultura, identidade e aliança política.

Viagens de Descoberta

Com a sua terra-natal marcada pela desafortunada ecologia das ilhas e pela afortunada localização num mundo cruzado pelo comércio e pelo império, os caboverdianos aventuraram-se para o exterior para tornarem melhores as suas vidas e as dos que tinham deixado para trás. Atraídos à América pelas oportunidades, ainda que para trabalhos arriscados e mal pagos, tornaram-se baleeiros, marinheiros e operários têxteis. Exportando-se a si próprios e ao seu trabalho para os Estados Unidos, enquanto mandavam algum do seu salário de volta para casa, os caboverdianos tornaram-se um povo transnacional, em diálogo cultural contínuo, participando em instituições que mantêm os laços entre si - companhias de navegação, partidos políticos, sociedades de socorros mútuos e organizações de auxílio, bancos, investimentos, vídeo, rádio, jornais - bem como através de actuações musicais em clubes ou de discos distribuídos por companhias frequentemente pertencentes a caboverdianos e, claro, de remessas monetárias.

Os caboverdianos participam em várias sociedades nacionais, vivendo dentro das suas leis e participando nas suas instituições cívicas. Hoje, na América, os caboverdianos estão representados em todas as profissões. Muitos professores, advogados, bibliotecários e médicos cujos antepassados chegaram como operários têxteis, jornaleiros agrícolas ou baleeiros, têm influenciado activamente essas leis e instituições e, em nome das comunidades caboverdianas, até subscreveram pedidos de alteração de algumas delas, tal como outros americano o têm feito, onde a justiça o requeira. E este ano, para celebrar o vigésimo aniversário da independência de Cabo Verde e para declarar ao mundo a unidade da nossa experiência cultural e histórica, juntámo-nos à Smithsonian Institution, a mais reverenciada das instituições culturais americanas, na nossa viagem de descoberta. Estamos felizes por aqui estarmos.

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Tradução de Manuel Freitas (malf@telepac.pt)