A poesia e ficção caboverdianas muito contam sobre o mar. Para oscaboverdianos, o oceano isola as suas ilhas da torrente dos acontecimentos mundiais e dosentes queridos forçados pelas circunstâncias económicas a migrar paraterras distantes. Apesar das águas límpidas e das praias de areia por todo olado, muitos caboverdianos não sabem nadar.
Para os pescadores artesanais de Cabo Verde, porém, o mar não éuma barreira mas sim uma estrada entre ilhas espalhadas por quase 630 mil Km2de oceano. Os pescadores que se fazem às áreas costeiras destaságuas dizem-se "artesanais" porque o seu sucesso depende da sua mestria na arte eofício da pesca. Os pescadores que são donos das suas própriasembarcações conseguem viver relativamente livres da burocracia e dosregulamentos criados pelas pessoas de terra. A frota de pesca artesanal consiste em cerca de1400 barcos entre 4 e 8 metros de comprimento e cerca de 1,6 metros de largura. A maiorparte está localizada em Santiago (50%) e São Vicente (10%). Perto demetade dos barcos está motorizada. A aprendizagem da pesca nestasembarcações é um rito tradicional de passagem pelo qual algunsrapazes passam a caminho de se tornarem homens.

Durante a maior parte do ano, as águas em torno de Cabo Verde sãoagitadas e ventosas. As correntes entre algumas das ilhas são traiçoeiras etravam regularmente os marinheiros pouco familiarizados com as condiçõeslocais, afastando-os da sua rota e atirando os seus barcos contra a costa rochosa. O canalentre São Vicente e São Nicolau é uma das passagens mais infames. Osdestroços de quinhentos anos de tentativas falhadas de travessia das águas deCabo Verde enchem a rochosa costa norte da Boavista e outras áreas bem conhecidasdos pescadores locais.
Agora que o turismo internacional começa a chegar a Cabo Verde, muitospescadores divertem-se a ver as suas faces em postais e em folhetos de agências deviagem europeias. Um cego seria capaz de os detectar pelo perfume delicioso de uma boajornada de pescaria exalando das suas roupas singelas. Mas a imagem destes pescadoresdescalços, chegando a terra com barbas de dias nas suas caras torradas pelo Sol, evocacenas românticas de incursões de piratas de outrora. Os turistas que tiram estasfotos parecem fascinados com todos os gestos que os pescadores fazem.
As combinações de calças, gabardines e chapéus amarelos, característicos daactividade piscatória comercial no Atlântico Norte, começam aaparecer em Cabo Verde. No entanto, o "uniforme" dos pescadores artesanais caboverdianosainda é ditado pelos recursos disponíveis e pela capacidade de manter umcorpo seco e quente numa noite fria com brisa marítima constante.
Ainda é comum ouvir, das bocas dos caboverdianos baseados em terra, umcomentário ocasional condescendente sobre a aparência, o estilo de vida ou oshábitos de trabalho dos pescadores. Parece justo dizer que a maior parte doscaboverdianos não pensa muito sobre os riscos que os pescadores artesanaisrotineiramente enfrentam e o repertório de habilidades que devem adquirir e manterpara trabalharem e sobreviverem. E, não obstante, é impossível pensarem Cabo Verde e na sua cultura, folclore, música, canções, poesia,pintura, cozinha, história e mitologia sem nos referirmos ao mar.
Se chove, morremos afogados.
Se não chove, morremos de sede.
-- provérbio caboverdiano
A contradição doce-amarga está à nossa volta em CaboVerde. A beleza e a força resultam da dor e da fealdade. Frequentemente, desgosto eódio resultam do que é limpo e belo. No auge da seca rezamos pela chuva.Quando as chuvas caem, há pessoas afogadas em cheias, crianças morrem dediarreia, as águas costeiras ficam poluídas com o arrastamento dos solos e dosdejectos humanos. Muita da pesca costeira é suspensa. Assim é oespírito caboverdiano tal qual ele luta e sobrevive a cada embate contra a seca e afome, a cada episódio de abuso por programas governamentais de curto alcance, acada sentida mas calada micro-agressão dos que têm contra os que nãotêm.
A cultura das vilas piscatórias é um componente insubstituível doque os caboverdianos são e de como nos vemos enquanto um povo. Os valores quedefendemos da família e do trabalho provêm da mesma fonte que continua aalimentar a tradição caboverdiana contemporânea musical e expressiva.Os caboverdianos fazem da amargura poesia e determinação de viver. Em ladonenhum é esta capacidade espiritual mais evidente que nas vilas piscatóriasdas Ilhas.
A Cultura é contínua, unindo passado, presente e futuro. Éigualmente abrangente. Todos os membros da sociedade, os seus grupos regionais e asassociações voluntárias interagem com a cultura e participam na suaprodução. O verdadeiro empowerment económico e social nãose pode desenvolver isoladamente das realidades culturais. Enquanto muitos concordariamem que uma adequada participação é um pré-requisito para odesenvolvimento, em Cabo Verde frequentemente parece haver o desejo, por parte dosfuncionários governamentais e das gentes das cidades, de aceitar amarginalização das famílias da pesca artesanal. Ainda maisnotável, os próprios pescadores parecem aceitar estamarginalização como um facto da vida imutável. Acredito que esteponto de vista deve ser sistematicamente desafiado. Devem tomar-se as medidas quepermitam aos pescadores participar como pescadores no diálogo do desenvolvimentonacional. A identidade cultural deve ser posta no centro do paradigma do desenvolvimentodas pescas em Cabo Verde.
Existem cerca de duas dúzias de pequenas vilas piscatórias nopaís e mais de sessenta outros ancoradouros traçando a linha costeira. Nomescomo Tarrafal, Pedra Badejo, Salamanca, Faja d'Água e Santa Maria evocammemórias de passeios em família ou piqueniques à beira-mar. Emmuitos sentidos, os habitantes destas vilas têm mais em comum uns com os outros doque com os caboverdianos das suas próprias ilhas baseados em terra. Para esteshomens, a pesca e a apanha da lagosta fornecem um modo de ganhar para viver quandoninguém em terra lhes consegue oferecer um emprego regular. Para asfamílias dos pescadores, aprender a viver com o mar significa independência,dignidade e mestria.
De uma geração para a seguinte, cada uma destas vilas piscatóriasdesenvolveu os seus próprios modos de transmissão da visão domundo, dos valores e das práticas especializadas do ofício da pesca. Jovensrapazes são aprendizes dos seus pais ou de outros pescadores conceituados na vila.Cada vila possui o seu melhor fazedor de redes. Será ele o mestre local do seuofício. Cada vez existem mais reparadores de pequenos motores e mecânicosde diesel, carpinteiros e calafates. Mas há apenas um punhado de carpinteirosreconhecidos pela sua capacidade de seleccionar a madeira e trabalhá-lagradualmente até que ela dobra e encaixa nos complexos moldes necessáriosà conclusão das obras de reparação dos pequenos barcos demadeira. Qualquer pescador ou a sua mulher pode salgar e secar o peixe mas o trabalho dealguns cortadores é facilmente reconhecível pelos habitantes locais, homenscomo Nho Mon Moreira e Djo Mane Djo Djinha, especialistas na arte de preparar muitasvariedades de peixe seco.

Na vila de Santa Maria, na Ilha do Sal, onde vivi com a minhamulher durante quatro anos, Anton Muchino di Palmeira e Antoninho Protestant di Sal Reieram considerados dois dos homens de mais confiança no mar, sob todas ascondições de tempo e de pescaria. Eles eram dois de apenas um punhado depescadores artesanais no país inteiro que não tocavam em álcool nemtabaco! Uma vez, fui à procura de outro pescador e perguntei ao seu filho onde opoderia encontrar. Disse-me "Hoje, el ta na agua". Enquanto esperava no embarcadouro peloregresso do pai, alguém me ajudou a compreender que a frase do filho era ametáfora local para "ébrio e fora de serviço"! Em Cabo Verde,há muitos bons marinheiros nas praias mas é preciso ter muito cuidado paraenfrentar um pescador num bom dia, num dia em que ele tencione ir pescar, num dia em quenão esteja "na água".
Nho Lela Tchau aprecia a conversa com quem passa e é geralmente consideradoo melhor calafate em Pedra de Lume, ainda que seja famoso por rotineiramente subestimar otempo necessário para completar as suas obras. O Sr. Tchatcha, vestindo a sua eternafronte sulcada, é o dono da única rede de praia em Santa Maria. Ébom que ele não o apanhe a si a tocar na sua rede se você não estiverentre os muitos fortes ajudantes que se lhe juntam a puxar as cordas ao amanhecer. Segundoele próprio admite, Nho Djak fabrica a melhor corda na vila. Mas Quat Pão,um extraordinário vagabundo das praias, é o mais regular apanhador de cordaperdida e tudo o mais que dê à costa depois das tempestades. Quat Pãoganhou a sua alcunha quando era criança porque as pessoas diziam que ele era capazde fazer tudo por "quatro nacos de pão", o significado da sua alcunha crioula.João di Camelia, de falas calmas, é o homem que você tentaria contratarse precisasse de um mecânico de diesel que tivesse de trabalhar todo o dia ao solescaldante, permanecendo sebento e sóbrio até conseguir pôr o motor afuncionar.
Cada uma das vilas piscatórias tem as suas "histórias de peixes", comoaquela sobre o Capitão Mamash, de pé no meio do seu pequeno barco, umadas mãos nas costas e a outra segurando com determinação a linha quepuxava um atum de 500 quilos, e sem ajuda de terceiros. Nho Fidgim desbravou sozinho omar aberto e fez o caminho do Sal a São Nicolau, com alimentos para familiares eamigos devastados pela fome. Nenhum dos dois alguma vez fala muito sobre sipróprio. Alguns dos mais veteranos encontram a sua renovação pessoalno mar; dizem que nunca se sentem deslocados no mar. Encontram o conforto nos rituaisdiários e nos ritmos do trabalho e em saberem que estão preparados paraqualquer aventura que o oceano lhes reserve para o dia de hoje. Nunca encontrei um pescadorcaboverdiano que não fosse um homem de fé e superstição.
Sem peixe, sem comer. Sem peixe, sem dinheiro para comprar o tabaco e o grogue. Senão estiver a chover e houver visibilidade suficiente para ver nem que seja uns poucosmetros à frente do barco, alguém sairá para o mar. No entanto, umamedida curiosa do empenhamento de muitos dos pescadores artesanais caboverdianos emtrabalhar no mar pode ser facilmente observada com a chegada súbita das primeiraschuvas da estação. Estas chuvas de Setembro e Outubro são geralmentepouco frequentes e de duração irregular. Mas, quando a primeirabátega cai, a preocupação da maior parte dos pescadores artesanais deCabo Verde desloca-se do oceano para a plantação e cuidado dos quintais.Assim que caem as primeiras chuvas, mesmo nas ilhas mais secas do Sal e da Boavista, ospescadores, cheios de entusiasmo e esperança, abandonam os seus pequenos barcos ecorrem literalmente a ajudar as suas famílias a plantar um pedaço de terra. NaIlha do Sal, os lotes de terra mais procurados situam-se em Terra Boa, uma zona baixa anorte do aeroporto e acessível aos habitantes de Espargos e Palmeira. Aqui aMãe Natureza criou um declive suave numa vasta planície sobre a qual ventosincessantes em direcção ao mar depositam continuamente uma poeira de solorico em nutrientes. É o único local nesta ilha ressequida onde osdepósitos no solo e o resíduo da ocasional chuva torrencial permanecem otempo suficiente para produzirem uma colheita.
Com sorte, as chuvas cairão pelo menos mais duas ou três vezes, comintervalos de duas ou três semanas, o suficiente à justa para produzir umapequena colheita de milho, batata doce, feijão, tomate e cebola e forragem paraengordar um porco para o Ano Novo. Nesta época do ano, reduz-se a oferta de peixeno mercado local e as pessoas de terra parecem apreciar melhor o papel vital que ospescadores artesanais desempenham na cultura, na economia e no abastecimento alimentar dopaís.
Na hierarquia de ocupações e grupos sociais em Cabo Verde, atéos pescadores artesanais têm alguém de quem podem contar anedotas: osmergulhadores da lagosta. Os pescadores nunca põem em causa a bravura dosmergulhadores mas questionam-se em voz alta sobre a sua sanidade, dado que se sujeitamregularmente a acidentes de descompressão, ataques de tubarões, correntesfortes, choques térmicos, embates nas rochas e mesmo possíveis encontroscom raias gigantes (uchas) ou com um dos lendários "demónios dasprofundezas". Toda a gente nas vilas piscatórias sabe os nomes dos mergulhadoresque cometeram erros. Nomes como Erminio, paralisado numa cadeira de rodas porquenão conseguiu resistir a ir apanhar mais uma lagosta depois de já ter terminadoa jornada. Ou nomes como Djuquim, que morreu porque arriscou demasiado a tentar arranjaralgum dinheiro extra para as férias. Ou Graça, que tentou afastar-se dosperigos do mergulho a partir do seu pequeno barco, trabalhando num barco lagosteirocomercial. Um velho compressor ferrugento passou misteriosamente ainspecção apenas com uma nova demão de tinta verde mas explodiu nacara de Graça, matando-o instantaneamente.
Como de costume, a comunidade piscatória local junta as mãos paraenterrar os seus mortos. Ninguém foi para a pesca no dia seguinte ao da morte deGraça, para se certificar de que ele "estava bem enterrado", com guitarras e violinos,um padre, um caixão verdadeiro, bom grogue, cachupa, o habitual. Uma vez mais, opovo de terra, com grande respeito, assistiu de longe à maneira como os homens domar continuaram com o seu modo de vida.
Os megulhadores de lagostas relembram os nomes dos compradores portugueses,espanhóis e franceses e as tácticas que alguns têm empregado paraempolarem os preços de modo a conseguirem o máximo possível daapanha semanal. Hoje, o preço local da lagosta está fora do alcance damaioria dos caboverdianos. As manipulações de alguns compradoresestrangeiros e dos seus agentes locais têm causado atritos entre os pescadores e a perdada confiança e da cooperação tão essenciais àsobrevivência das vilas piscatórias. Alguns mergulhadores locais observam quemesmo os menos escrupulosos destes compradores estrangeiros conseguem facilmente fazer-se ouvir pelo Governo na Praia ou almoçar num hotel com um oficial daAlfândega - coisas que a maioria dos pescadores não espera alguma vez fazer.
Como resultado de apanhas excessivas, o número de lagostas de todas asespécies tem diminuído dramaticamente nos últimos anos. Asexportações de ambas as variedades de lagosta de água fria,comummente chamada lagosta vermelha, e a sua parente de água pouco profunda,lagosta verde, cresceram de 47 toneladas em 1985 para 99 toneladas em 1992, gerando umareceita equivalente a quase um milhão de dólares, ou cerca de 10% do total dereceitas de exportação de Cabo Verde. Armadilhas de profundidadesão colocadas para a lagosta vermelha, de maior valor, enquanto os mergulhadorescapturam a lagosta verde com as suas mãos e uma vara de metal em gancho.
Hoje existe uma nova raça de mergulhador caboverdiano, o turista mergulhador.Alguns mergulhadores de lagosta como Tiston**, Richard, Beto e Fernando di Nha Julietapodem contar com dias de trabalho de oito horas em barcos limpos, em coloridos fatos demergulho com equipamento moderno e fotos e aperitivos pós-mergulho àvolta das piscinas dos hotéis com turistas franceses, alemães e de outrasnacionalidades. Mas, se os turistas não vierem, os hotéis dispensam-nos dotrabalho. E então desaparecem os bonitos fatos de mergulho e os bons modos nasfestas e o que emerge é um tradicional mergulhador de lagosta, pronto para pôrde lado os regulamentos e as tabelas profissionais de descompressão de mergulho paraarriscar o corpo e a vida na busca da lagosta que ele sabe irá colocar dinheiro no seubolso e comida na mesa da sua família.
Os mergulhadores encontram um mercado disponível e os melhorespreços nos hotéis, nos restaurantes e no mercado da vila para tudo o queconseguem apresentar em qualquer altura do ano. É ilegal apanhar lagosta de Julho aSetembro. Durante este período, muitos mergulhadores ganham a vida noutraocupação. Nada é mais bem-vindo à festa de umafamília caboverdiana do que as delícias oferecidas por este minúsculosector de homens que ganham a sua vida no mar. Estas delícias incluem a lagostaverde (lagosta de água pouco profunda), lapas, percebes, cracas, lulas, chocos, polvo,moreia, búzios e até por vezes, numa descarada afronta à lei,tartaruga.
A mesma espécie de peixe pode ser conhecida por nomes diferentes nasvárias ilhas. Os seus nomes crioulos soam a música aos ouvidos dos amantesde peixe caboverdianos: atum, aranque, badeijo, badja, bica, bicuda, bidião, benteidja,cavala, covina, cachorrinha, dorado, djeu, esmorigal, facola, gudja, goraje, merr, moreia,moco, palombeta, papagaio, peixe espada, melon, odgo largo, rabo secu, rei, reinha, tainha,tchicharro, sarbonete, sargo, salmão, saia, serra e garoupa, talvez o mais apreciado dospeixes locais.
Muitos pescadores ainda se apoiam na vela triangular e nos fortes ventos ao largo para assuas viagens diárias aos recifes abundantes em peixe. Nos Séculos XV e XVI,o desenvolvimento deste particular modelo de vela ajudou os portugueses a assegurar odomínio na exploração marítima europeia. Hoje, nabaía de Sal-Rei, na Ilha da Boavista, há competições de velasemanais durante os meses de Verão. Estas corridas permitem apreciar aperícia tradicional da pilotagem da vela triangular. O melhor barco nãoserá escolhido pelo seu estado de limpeza ou pelas suas cores. O barco vencedorserá sempre aquele que conseguir a melhor velocidade num mar agitado com ventoforte. Infelizmente, o advento de pequenos motores exteriores a gasolina jáestá a provocar um impacto negativo na manutenção destaspráticas tradicionais.
Para o pescador, cada dia começa a olhar para o horizonte e a avaliar os sinaisnaturais: "céu vermelho de manhã, marinheiro toma cuidado; céuvermelho de noite, marinheiro faz festa", como diz o ditado. Mas há muito mais aestudar na fórmula: a fase da lua, qual a melhor maré para estar nos bancosde pesca quando ela muda, se as nuvens escondem a chuva que manterá asuperfície do oceano e a minha cara frescas, se há vento suficiente para darà vela, se o vento vem de nordeste tornando o dia seco ou se vem de sul dondetambém vêm as tempestades, se as ondas fazem espuma ou se o marserá como que um berço com um leve movimento de abano, o que pescarnesta época do ano, e o isco: atum, garoupa e perca requerem preparativos muitodiferentes, aquele ondular ali será que é um cardume de peixe para isco, se euvou para o peixe que vem à superfície então ele morde o anzol maisde manhã e ao fim da tarde do que durante o calor do meio-dia, se eu vou para o peixede profundidade então as horas do dia são menos importantes do que amaré e as correntes. Há outros sinais: será que aquela pod degolfinhos assinala atuns a nadar por baixo, será que aqueles pássarosmarinhos a mergulhar revelam um cardume de pequenos peixes para isco ou, na Primavera,talvez mesmo uma baleia cinzenta a saltar fora de água, estará a águatão quente que terei mais possibilidades de encontrar tubarões hoje. E,finalmente, terei que correr em direcção ao porto para chegar a horas devender a minha pescaria na lota ou haverá procura pelo meu peixe nos hotéise restaurantes independentemente das horas a que regressar? Como último recurso,conseguirei vender a minha pescaria na fábrica de atum se mais ninguém aquiser comprar? Tantos sinais, tantas variáveis, tantos cálculos emsilêncio.
O gaiado é o primeiro a chegar em Junho e o atum de rabo seco, maior, segue-o à medida que as águas vão aquecendo.Em Setembro, o atum de olhos grandes, disputado pelos japoneses por causa da sua carnegordurosa, passa por algumas áreas da vasta zona económicamarítima de Cabo Verde. Os peixes de recife abundam quase todo o ano. Uma boapescaria de peixe de profundidade trará melhor preço que o habitual peixe derecife mas não é qualquer pescador que sabe como navegar comprecisão até aos bancos distantes como o Embora todos estes animais vivam nas águas à volta de Cabo Verde,raramente existe um abastecimento regular de peixe no mercado para satisfazer a procuralocal. Devido à falta de refrigeração, o peixe fresco estáfrequentemente indisponível para as populações que vivem nasregiões interiores e isoladas das ilhas montanhosas. Mas no Sal, Boavista e Maio, asmais secas e planas das muitas ilhas de Cabo Verde, há sempre umaabundância de sal e há sempre um bom mercado para peixe seco bempreparado. Na Ilha do Sal, uma vez saciado o mercado local e a procura dos hotéis, o"mercado de último recurso" é a fábrica de conservas de atum emSanta Maria ou a câmara frigorífica em Palmeira. Na fábrica do atum,um pescador pode receber a magra soma de 40 cêntimos de dólar por Kg pelasua pescaria de atum ou de ilhéu. A câmara frigorífica de Palmeirapoderá comprar a sua pescaria e guardá-la para exportaçãopara uma companhia estrangeira de comida para gatos ou talvez para um pequeno importadorem Lisboa. Na maior parte do ano, o mercado está na mão dos compradores eo pequeno pescador, sem se atrever a protestar, simplesmente aceita o que lhe é dadopela sua pescaria do dia. Cerca de 5800 pessoas estão empregadas na pesca tanto artesanal como industrialem Cabo Verde. Cerca de 3000 homens, 8% da população de Cabo Verde,ganham a sua vida como pescadores artesanais. Uns cem desses são mergulhadorestrabalhando em barcos lagosteiros comerciais ou como mergulhadores livres. Juntamentecom os vendedores ambulantes e as peixeiras do mercado, há mais micro-empresários envolvidos na pesca artesanal do que em qualquer outro sectoreconómico. Entre 1985 e 1991, a produção artesanal variou entre 4000e 7000 toneladas, escoada totalmente no mercado nacional. Espantosamente, esta tãofrequentemente desprezada e subavaliada subcultura dentro da sociedade caboverdianafornece mais de 65% da produção nacional de peixe, o que representa quase75% de toda a proteína animal consumida pela população. Afrágil interdependência do homem e da natureza nestas ilhas em nenhum ladoé mais evidente do que nas tradições culturais ocupacionais eexpressivas das suas famílias de pesca artesanal. Não tenho agravo ao mar -- Provérbio caboverdiano O futuro da pesca artesanal encontra-se entre os muitos desafios que Cabo Verde enfrentaà medida que começa a responder às forças docomércio internacional e faz planos de industrialização. Os encontroscaboverdianos sobre pescas quase sempre incluem representantes do aparelho políticoda Praia e dos seus conselheiros estrangeiros, grupos de armadores de São Vicente e da Praia, conserveiros de atum, exportadores de lagosta eaté, por vezes, representantes de companhias pesqueiras industriais espanholas,japonesas ou de outras nacionalidades. Raramente tem havido a participaçãode pescadores tradicionais. Na maior parte destes encontros, o diálogo descaiinvariavelmente para os problemas dos navios comerciais, questões de financiamentosbancários, exportações e para uma discussão sobre odesenvolvimento das pescas baseado nas necessidades do mercado. É justo perguntar:quem fala pelas comunidades de pesca artesanal? O Banco Mundial e outrasinstituições de empréstimo internacionais, bem como a maior parte dosdoadores bilaterais, chegaram demasiado tarde para apreciarem a necessidade de proteger acultura e a sociedade civil como partes integrais de qualquer planeamento integrado dedesenvolvimento económico. Muitos países aprenderam que odesenvolvimento económico "a todo o custo" nem é económico nemé necessariamente desenvolvimento. Observem-se as Os planeadores de Cabo Verde devem permanecer firmes na suadeterminação de aplicação de programas de longo prazo paraatingir um desenvolvimento económico sustentado que não cause uma grandedesarticulação cultural. Estes planeadores precisam de saber que ascomunidades da diáspora caboverdiana e os amigos de Cabo Verde à volta domundo estão profundamente preocupados em que o desenvolvimento sustentado sejaconseguido sem transtornar as culturas vivas das Ilhas. A menos que o planeamento económico inclua incentivos financeiros e outrosserviços de apoio para as famílias de pescadores que lhes permitam e asencorajem a ficar na pesca, as fontes culturais destas comunidades estarão em risco.Estes homens deixarão a pesca com consequências previsíveis. Algunsplaneadores governamentais argumentam que medidas especiais poderiam ser consideradascomo "proteccionismo". Medidas excepcionais têm de ser tomadas para criar umambiente propiciador que coloque os pescadores no centro da equação dagestão de recursos. Os pescadores, tal como outros micro-empresários,deveriam ter um acesso mais fácil a créditos bancáriosacessíveis. Acima de tudo, os pescadores deviam ter um preço justo garantidopara todo o peixe trazido para terra. O Governo deveria insistir numa maiortransparência nos negócios de compradores estrangeiros em Cabo Verde. Amenos que Cabo Verde esteja disposto a fazer este investimento agora, os pescadoresartesanais não conseguirão manter a sua cultura viva. Tanto a pesca comercial como a artesanal têm papéis a desempenhar nofuturo económico do país. Mas, tal como as maçãs e aslaranjas, não podem ser comparadas entre si. Nem deveriam competir uma contra aoutra a chamar a atenção do Governo. Nenhum grau de desenvolvimento nosector industrial das pescas pode substituir o que Cabo Verde pode perder se não fortomado muito cuidado para alicerçar e assegurar a sobrevivência da cultura dascomunidades piscatórias artesanais. Estas comunidades são produtoresalimentares de confiança. Possuem famílias coesas e são um pontofocal para o desenvolvimento turístico. Esperamos que mais caboverdianos venham aconsiderar a pesca artesanal como a "arte" de pescar para viver, um acto de bravura e culturae um contribuinte vital para o balanço económico do país. Asfamílias e a cultura destas comunidades devem ser mantidas fora do leilão do"desenvolvimento económico". ================================================================= ** Em meados de Dezembro de 1995, Eduardo "Tiston" de Pina faleceu, vítima de ataque cardíaco, enquanto pescava com arpão num recife junto ao Farol, no dia de folga do seu emprego de mergulho turístico no hotel. (RIP). Frota Industrial (1990): Frota Artesanal e Produção (1990): Potencial de Pescas (toneladas): Email: N ka ten di agraba di mar
pamodi tudu ki ten e mar ki dau.
Porque tudo o que tenho foi o mar que me deu.Um Posfácio:
Notas:
* (6-Jan-96) As opiniões expressas são as do autor e não reflectem apolítica oficial caboverdiana. Agradeço a Lineu Miranda, Lela Rodrigues e Teof Figueiredo por terem aberto os meus olhos para as realidades de Cabo Verde. Agradeço a Maria Luísa Ramos e aos meus muitos amigos em Santa Maria, Ilha do Sal, que me ajudaram a compreender o impacto das forças da Natureza, dos Governos e da cultura nas vidas das famílias piscatórias de Cabo Verde.
Fontes:
Estatísticas e Estimativas
Do Ministério das Pescas de Cabo Verde. Assim que for divulgadainformação actualizada, ela será colocada nesta Página.
Esta página é mantida por Raymond Almeida
Tradução de Manuel de Freitas (manuel.freitas@ip.pt) revista pelo autor