Student Presentation

by Jandir Oliveira

Annual Amilcar Cabral/Martin Luther King, Jr. Conference

"The Road to Freedom"
Culture as a Means of Resistance

A Conference and Cultural Event
Monday, January 18th, 1999
UMass Boston, Healey Library

Ilustres convidados,

Devo em primeiro lugar agradecer o honroso convite de apresentar perante tao ilustre audiencia, uma comunicacao sobre Amilcar Cabral, em mais uma homenagem no quadro da efemeride do vigesimo sexto aniversario da sua morte.

Quando me foi pedida a presente comunicacao, foi-me delineado o aspecto cultural e da juventude a partir da perspectiva de Amilcar Cabral, e e nestes paramatros que embora nao sendo expert na materia me proponho a honrar o assunto.

Tambem gostaria que essa comunicacao servisse como alerta a todos jovens caboverdeanos, principalmente aqueles que por varios motivos sao victimas de problemas sociais como droga, alcoolismo, criminalidade como e o caso daqueles 19 jovens caboverdeanos que neste momento sao alvos das autoridades americanas.

Falar de Amilcar Cabral pressupoe uma metodologia de analise bastante estruturada e complexa, na medida que significa falar de um dos maiores expoentes do pensamento global nos dominios da ciencia politica e da cultura. Falar deste lider implica um orgulho epestimologico profundo nas nocoes da cultura como arma de resistencia e da libertacao, e da politica enquanto variavel progressista de afirmacao das demandas varias.

No entanto pergunto: "o que tem a ver Amilcar Cabral com os novos em que o milenio se torna e em que o mundo se tornou global?" E ainda, " Qual o interesse de abordar Amilcar Cabral para a nossa juventude caboverdiana residente nos Estados Unidos da America e a caminho do Ano 2000?"

Nao foi sem algum dilema que me propus a pesquisar os padroes de pensamento de Amilcar Cabral procurando criar a ligacao entre esta personalidade, o tempo, o espaco e este publico jovem ao qual procuro alcancar. E nao foi sem muito espanto que descobri que o pensamento estruturado de Amilcar Cabral se dimensiona directamente a este momento e a este publico.

Perspectivar Amilcar Cabral subentende perspectivar a luta de libertacao Nacional no quadro da descolonizacao dos paises Africanos de Expressao Oficial Portuguesa, muito em particular Guine e Cabo Verde. E e no quadro desta luta que Amilcar Cabral foi estruturando uma idealogia de libertacao, baseada na luta armada como acto de cultura.

Aparentemente paradoxal "guerra e cultura", Cabral soube teorizar sobre a resistencia cultural como a essencia mais descolonizante da postura dos povos em libertacao. Falando em outros termos, Amilcar Cabral vai desenhar o afrontamento ao colonialismo como um acto permanente de procura de identidade Nacional, e um acto gradual de assimilacao e valorizacao da propia cultura. Nao e sem razao que Amilcar Cabral fez um profundo apanhado historico-antropologico dos povos da Guine e Cabo Verde, listando os seus aspectos de cultura mais definidores de identidade, tal como as linguas nacionais, a tradicao, a arte e o modus vivendis dos povos da Guine e Cabo Verde.

O pensamento vectorizado na resistencia cultural pode perfeitamente ser transportado para realidade que nos jovens caboverdianos neste lugar e a este tempo vivemos. Ultrapassadas a fase colonial e fascista, um grande avanco se da a nivel da Nacao caboverdiana no tocante a afirmacao da identidade e a consequente afirmacao da soberania. Entretanto, hoje como ontem deparamos com situacoes de imperialismo e alienacao cultural, tanto em Cabo Verde como na diaspora. No caso particular dos Estados Unidos, a juventude, merce do grande peso da industria cultural americana, encontra-se particularmente vulneravel no tocante a assimilacao de valores, alguns dos quais descaracterizantes da nossa identidade. Alias, tem sido notorio o numero de jovens que no afa da integracao acabam na chamada "zona de ninguem", vulneravel a droga, alcoolismo,criminalidade e insucesso no emprego, quando nao a engrossar a terrivel lista das prisoes e das deportacoes. Quero crer que a maior parte destes jovens "desajustados" sejam victimas da alienacao cultural, na medida em que nao "resistiram" a deformacao da sua propia identidade, no sentido Cabralista do termo.

Uma das grandes preocupacoes para a afirmacao e resistencia cultural tem a ver com o processo educativo que como ja dizia Jean Frainet, "A educacao tanto pode educar como deseducar." Assim nao nos faltam exemplos de uma educacao, que mesmo tentando instruir nas artes, ciencias e ideias, procura mutilar a identidade do educando sem respeito a sua particularidade multicultural. No caso particular dos nossos jovens, apesar de varios esforcos de introduzir o multiculturalismo nos curriculos escolares, e evidente a educacao da assimilacao atraves da perda da cultura de origem. A maior parte dos chamados "educados" apresentam uma evidente castracao de cultura propia, e uma aparente assimilacao da cultura americana, com perdao pelo rasgo critico, da chamada cultura "main stream", entendendo-se ango-saxonica.

O caboverdiano ao chegar aos Estados Unidos e portador de uma identidade propia forjada ha centenas de anos e enraizada na sua forma de viver nas ilhas. Ao chegar dizia, ele confronta a sua identidade com os aspectos civilizacionais da America e muitas vezes este embate nao se da pela forma dialogica, ou seja de intercambio de valores culturais, mas de forma mutiladora, quero eu dizer, pela perda de identidade e pela assimilacao dos valores padroes da sociedade americana. Este processo que segundo a filosofia Marxista se chamara de Alienacao,e de acordo com o pensamento de Franzt Fannon, se chamara de "mascara branca", vai definir uma desestruturacao social e psicologica de muitos caboverdianos a viver neste pais, em particular os jovens, cujos quais mais vulneraveis a Assimilacao.

Dai que surge entretanto a questao: "Que fazer para resistir culturalmente?" ou mesmo a provocante pergunta: "Sera que ser caboverdiano significa rejeitar a cultura Americana?" Obviamente que postulamos a identidade como valor de pertenca positiva, integradora a dinamica. Nao somos de pensar uma caboverdianidade fechada para o mundo e em defensiva em relaccao a modernidade. Amilcar Cabral dizia nos seus escritos da resistencia cultural que importa avaliar sempre e objectivamente o que e necessario preservar da nossa cultura e o que e importante assimilar das outras culturas. Ilustro esta tese com a analise que Cabral fazia da preservacao da nossa lingua Nacional-o criolo de Cabo Verde-e a necessidade de aprender a lingua portuguesa, dizendo mesmo ser ela "uma das maiores herancas culturais do colonialismo." Transferindo para o cenario americano ousamos dizer que neste particular nos importa preservar e promover a nossa lingua Nacional e ja agora a lingua herdada, o portugues, e aprender como valor necessario e estrategico a lingua inglesa. O mesmo acontece no dominio das Artes, das ciencias e tecnologias, ao qual nos suscita uma aprendizagem sem precedentes que nos permite este imenso pais sem perdermos as nossas tradicoes e o nosso modo de vida. Alias para se melhor viver no mosaico americano e melhor participar da democracia com bases multietnicas e multiraciais so e possivel atraves de uma autonomia critica e de uma identidade cultural propria. A titulo de paralelismo afirmamos que o judeu nao perde o judaismo para se sentir americano, ou mesmo integrado na America. O mesmo acontece em relaccao ao Afro-americano, os latinos, os chineses, e as demais comunidades que fazem a America.

Ultimamente, vem-se notando uma certa tendencia, sobretudo nas areas urbanas de Boston, New Bedford, Brockton e Providence da guetizacao da juventude caboverdiana, devido a questoes sociais evidentes tais como: a ilegalidade, o desemprego, o insucesso escolar, a violencia e a droga. Este fenomeno de guetizacao que nao victimiza apenas jovens cobeverdeanos mas grande parte dos jovens dos grupos minoritarios, deve ser encarado como um fenomeno a requerer fortes organizacoes civicas e sobretudo sentido de pertenca cultural. No caso particular dos jovens caboverdeanos tornou-se tao importante quanto urgente a criacao de Organizacoes Associativas Comunitarias no sentido de desenvolver programas da promocao dos valores culturais caboverdeanos da saude publica, da orientacao ao emprego e da definicao das demandas especificas da juventude caboverdiana. Note-se que a maior parte dos caboverdeanos pertence ao roll dos trabalhadores e contribuintes do universo fiscal destas cidades, embora estejam longe de obter em paridade os beneficios e oportunidades sociais que nelas se oferecem. Naturalmente que temos estado a identificar alguns programas tais como a educacao bilingue, a MAPS, a DSNI, e a Bowdoin street Health center, mas tudo isto que e importante ainda e extremamente reduzida para promover em exacta medida as respostas que demandam os caboverdeanos, em particular os jovens.

Finalmente queriamos alertar que o exemplo de Amilcar Cabral deve ser colocada em perspectiva e reelaborada a partir da nossa vivencia num mundo a caminho do terceiro milenio, cujo as oportunidades se apresentam melhores do que aquelas sobe o colonialismo portugues, embora nem por isso imunes da marginalizacao e da Alienacao. Dai que exortamos a todos o aprofundamento do pensamento de Amilcar Cabral no tocante a cultura como factor de resistencia e variavel do desenvolvimento. O espaco que nos foi dado para conceber esta comunicacao e limitado em termos de tempo, de modo que nao nos e possivel aprofundar e detalhar algumas das preocupacoes levantadas. Entretanto permitimo-nos a debater e responder questoes ligadas a esta materia porque e nossa profunda conviccao de que o ideal Cabralista da Resistencia cultural seja ainda, aqui e agora o ideario fundamental para afrnacao da nossa juventude nesta poderosa e interessante sociedade.

Muito obrigado,

Jandir Oliveira

a nossa vivencia num mundo a caminho do terceiro